
QUANDO O SUJEITO FALA
O GÊNERO ARTIGO
Segundo Rastier (1998), um gênero textual se constitui pela existência de um corpus, inserindo-se em uma classificação relacionada à reunião de textos que apresentam certa normatividade em sua produção, e criando uma memória discursiva do gênero. No entanto, as normatividades do corpus de um gênero são constantemente atualizadas, o que aponta esse mesmo corpus como um composto heterogêneo que segue uma regularidade, o que não significa dizer uma padronização rígida. Em várias publicações, muitas vezes, o artigo é tomado por ensaio e/ou vice-versa, devido a algumas semelhanças entre esses dois gêneros textuais.
O artigo possui a estrutura do texto argumentativo e pode ser caracterizado como tal – apresenta introdução, desenvolvimento e conclusão. Vejamos algumas características gerais:
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É sempre uma produção intencional. Pretende persuadir o leitor de que a ideia ali defendida tem legitimidade, sentido e razão de ser;
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A linguagem utilizada na exposição de ideias e na comprovação de fatos e/ou teorias é argumentativa;
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Apresenta os elementos principais da textualidade – coesão e coerência, que funcionam como marca da presença de posição de autor, oferecendo logicidade ao raciocínio desenvolvido;
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No que diz respeito à sua extensão, alguns autores classificam-no como relativamente pequeno; no entanto, os artigos se apresentam em vários tamanhos;
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O artigo faz uso, comumente, da primeira pessoa do singular e/ou do plural, o que caracteriza a assunção da ideia, do discurso ali colocado. Alguns autores, no entanto, escrevem artigos de opinião na terceira pessoa do plural.
Existem dois tipos de artigo: Científico e de Opinião. O primeiro normalmente apresenta extensão maior que o segundo, pois é o resultado não somente da ideia do autor em relação a um tema, mas também de uma investigação mais apurada, cujo processo é revelado no texto. No artigo científico, as ideias e fatos relativos a um tema são expostos de modo sistematizado. A redação deve explicitar, objetivamente, o ponto de vista teórico adotado, evitando repetições, redundâncias e a exposição de ideias alheias ao tema. A pesquisa deve ser útil e relevante para a área específica, assim como para o desenvolvimento da ciência, de maneira geral; identifica as fontes dos dados utilizados na pesquisa, explica os procedimentos metodológicos utilizados e apresenta a referência bibliográfica utilizada. O artigo de opinião é um texto comum nos meios jornalístico, artístico e cultural, em geral; normalmente publicado em jornais, revistas e outros tipos de periódicos. Ao contrário do artigo científico, revela de modo mais intenso a subjetividade do autor, por meio de argumentos que não exigem, necessariamente, comprovação científica. Predomina a linguagem persuasiva, a manipulação de fatos, ideias e argumentos, com o objetivo de convencer o leitor. Os argumentos podem se basear em dados colhidos da realidade, em citações de autoridades (opiniões de pessoas reconhecidas no campo das ideias que envolvem o tema abordado) e/ou em fatos, exemplos e ilustrações que podem ser observados na realidade.
COMO ELABORAR O ARTIGO DE OPINIÃO
Confusões acerca da distinção entre o artigo de opinião e o texto dissertativo típico de vestibular são muito comuns. Mesmo quando se tem em mente a concepção sobre o gênero artigo e as suas marcas textuais, é necessário se lembrar de um elemento-chave antes de iniciá-lo. Esse elemento-chave é o pressuposto (tese). Não há possibilidade de se produzir artigo de opinião senão pelo estabelecimento de uma TESE, uma vez que esse gênero de texto se caracteriza exatamente pela defesa de um pressuposto, de uma ideia específica, eleita pelo autor, a respeito de um tema (algo em que ele acredita e com que se identifica). Nesse aspecto encontramos a diferença entre o artigo de opinião e o texto de vestibular, no qual o autor apenas discorre sobre um assunto, expõe ideias a respeito dele, sem elaborar a defesa de uma ideia específica, sem ‘levantar uma bandeira’. Obviamente que as ideias aí expostas partem da experiência de quem escreve, das informações, impressões e sentimentos que tem a respeito. Por isso mesmo, há de estar presente a subjetividade do autor; mas é importante deixar claro que isso ocorre de forma indireta, implícita, a partir do uso que se faz da terceira pessoa e, às vezes, da primeira pessoa do plural.
Já o artigo de opinião nasce a partir da reflexão acerca de determinado assunto, quando esse assunto incomoda/provoca o autor, incitando, para além de uma análise crítica, o estabelecimento de uma posição própria. O autor, a partir de informações, do conhecimento, do que ouviu e leu a respeito do tema, começa a elaborar uma ideia particular. Nesse contexto, aparece a subjetividade como elemento marcante e decisivo, revelada pelo uso da primeira pessoa, o que garante ao leitor a existência de um sujeito-autor que firma uma postura diante de um assunto, que acredita piamente nessa postura e que a defende com veemência, a partir de argumentos sólidos. São os seguintes os componentes do artigo:
OBJETO: representa o tema sobre o qual se desenvolve a argumentação;
TESE/PRESSUPOSTO: ponto de vista do autor sobre o tema a ser desenvolvido. Ponto de partida da argumentação. É a ideia que será defendida pelo autor.
ARGUMENTOS: razões que fundamentam o ponto de vista do autor. Devem relacionar-se diretamente com o tema da argumentação e, logicamente, com o ponto de vista defendido.
Tomemos um tema como exemplo, para analisar a possibilidade de se produzir um artigo de opinião – o tema trabalhado na disciplina Oficina de Leitura e Escrita no primeiro semestre dos cursos das Faculdades Jorge Amado: À MARGEM; fazemos uma discussão, a partir de leituras diversas sobre pessoas/grupos de pessoas que sofrem exclusão/discriminação social, quais sejam: meninos de rua, pessoas com deficiência física, pessoas com transtornos mentais, homossexuais, idosos, negros e pessoas de baixa renda.
Se houver a seguinte sugestão: “elabore um artigo de opinião sobre o tema À MARGEM”, certamente o texto escrito não será um artigo de opinião, será simplesmente um texto dissertativo. Por quê? Porque elaborar um texto sobre um assunto é versar sobre esse assunto, expor ideias genéricas acerca dele. Um artigo de opinião não é um texto sobre um tema, é um texto sobre uma ideia (uma tese/um pressuposto) a respeito de um tema – uma ideia que foi eleita, selecionada a partir do momento em que o autor refletiu sobre determinada temática. Desfeito esse equívoco, voltemos ao exemplo – À MARGEM – A proposta seria, então, a elaboração de um artigo de opinião a partir do tema ‘à margem’. Escrever um artigo a partir desse tema significa que o autor (aluno, nesse caso), embasado na experiência pessoal/profissional, no material lido e discutido em sala, nos debates, seminários e informações prévias, refletiu criticamente sobre o assunto e começou a elaborar uma ideia particular, própria, que se insere no universo dessa temática, estando, assim, apto a defendê-la.
Na disciplina OLE – Oficina de Leitura e Escrita – e nas turmas em que trabalhei com o gênero artigo de opinião, os alunos realizaram pesquisa/coleta de material informativo sobre os subtemas relacionados à temática-mor (à margem) e organizaram um portifólio. Também houve apresentação de seminários em sala (cada grupo abordou um subtema). A partir do material trazido pelo grupo, houve leitura de textos presentes no módulo da disciplina e, em seguida, ocorreu uma discussão, envolvendo essa diversidade de fontes de informação, inclusive e principalmente a experiência prévia do aluno-autor, os seus valores, pré-conceitos e sentimentos em relação ao assunto. Todo esse material deve ser analisado por quem vai escrever um artigo de opinião. Se ele não existiu, no mínimo é necessário ter leituras/informações a respeito do tema, o que naturalmente se une à experiência subjetiva, favorecendo a existência de uma ideia, a qual será defendida no texto. O autor faz, dessa forma, uma reflexão crítica diante de tudo que ‘observou’ e estabelece uma ideia para defender. É o que chamamos de TESE ou PRESSUPOSTO. Não uma tese/ideia sobre um tema ‘x’, meninos de rua, por exemplo (o que resultaria em um texto de vestibular, como já foi dito), mas a partir desse tema ‘meninos de rua’; ou seja, o artigo é sobre a ideia que ele teve depois da reflexão crítica, a qual ele pretende defender. Vejamos dois exemplos específicos:
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TEMA/OBJETO - MENINOS DE RUA - Um aluno pode, por exemplo, ter a seguinte ideia: ‘o menino de rua que fica nas sinaleiras de Salvador é um marginal em potencial’. Aí está configurada a sua TESE, o seu PRESSUPOSTO, que pode até parecer absurdo. Mas isso é o que menos interessa, até porque a ideia de cada um deve sempre ser respeitada. O que interessa mesmo é que o autor saiba defendê-la, manipule dados e informações sobre o assunto, da forma que lhe parecer mais conveniente e favorável à persuasão do leitor.
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TEMA/OBJETO - IDOSOS - Refletindo criticamente sobre a situação do idoso, em geral, e sobre a sua permanência nos abrigos de Salvador, um aluno pode ter a seguinte ideia, estabelecendo-a como TESE ou PRESSUPOSTO: ‘Não existe lugar melhor para se assistir o idoso que o seu lar, no seio de sua família’. Nesse caso, o aluno defenderia a ideia de que o abrigo não é o lugar adequado para o idoso, de que ele deve ser assistido pela família, em casa, ressaltando a importância da assistência familiar nessa fase da vida.
Se temos o tema, objeto do artigo de opinião, e temos uma ideia estabelecida a partir desse tema, ou seja, a TESE/PRESSUPOSTO, significa que um conhecimento será (re) elaborado ali. O sujeito-escritor revela a sua ‘verdade’ sobre o que observou, finca uma posição diante de um tema, e, assim, sugere como real e legítima a sua perspectiva, a ideia colocada. A partir da tese, que deve sempre estar presente de forma direta e inequívoca na introdução do artigo (feita, quase sempre, em um parágrafo), compõe-se o desenvolvimento do texto, em que os ARGUMENTOS são postos. O autor lança mão do que for possível - fatos, dados estatísticos, opiniões/citações de pessoas de referência naquele assunto, exemplos de domínio público (não pode ser algo que tenha acontecido com o vizinho ou com o namorado), ideias – no intuito de persuadir o leitor, de mostrar que a sua ideia é digna de crédito. O desenvolvimento é feito em vários parágrafos (a depender da extensão do artigo). Finalmente, o autor vai arrematar o que foi dito, reafirmando a tese. A conclusão é exatamente isso – a retomada da tese (que já foi colocada na introdução); nada mais além do desfecho do texto, o que é feito em um parágrafo, como o foi na introdução.
MODELO
O medo incentiva o preconceito
Flávia Curvelo
A discriminação sofrida pelos meninos de rua não pode mais ser julgada como um preconceito absurdo de pessoas insensíveis, pois é exatamente a existência de um sentimento que leva a essa reação preconceituosa: o medo. A violência que assola os centros urbanos tem aguçado a desconfiança da população. As pessoas andam aflitas pelas ruas, imaginando que, a qualquer momento, elas podem ser as próximas vítimas. Sair de casa tornou-se um ato de coragem e até as próprias residências deixaram de ser sinônimo de segurança. E como se já não bastasse, as balas têm destino certo: os inocentes.
Nesse clima de terror fica impossível abrir a janela do carro e não desconfiar quando um menino de rua se aproxima. Se as boas aparências enganam, as más aparências assustam. O preconceito é desencadeado por essa insegurança e acaba se tornando uma forma de defesa, pois parece bem melhor desconfiar e surpreender-se com uma boa atitude do que confiar e decepcionar-se com um assalto. Assim, nos tempos modernos, a ausência de preconceito é pura ingenuidade e até mesmo burrice.
O fato de os meninos de rua serem apenas crianças gera um sentimento de pena nas pessoas, pois é óbvio que nem todas são marginais. Muitas delas só querem comida e roupas. Mas, infelizmente, quem vê cara não vê intenção. Grande parte dessas crianças se aproveita dessa sensibilidade para ‘atacar’. Além do mais, nas ruas, criança não é sinônimo de inocência. Os meninos e meninas de rua são criados pela vida difícil, não conhecem a infância, pois as circunstâncias os tornam adultos precoces.
O comportamento da sociedade em relação a essa porção social não deve ser visto como uma atitude cruel, e, sim, uma reação defensiva diante da situação de miséria e violência na qual se encontra o país. Os meninos de rua são, muitas vezes, e mesmo que sem culpa, pequenos ‘terroristas’. E é este terror que incentiva o preconceito, o qual, em um país dominado pelo medo, tornou-se um mecanismo de defesa, uma forma eficaz de prevenção da violência.
No modelo acima, podemos identificar claramente os componentes do artigo de opinião. Para começar o texto, a autora elaborou uma ideia sobre o tema ‘meninos de rua’, e, assim, estabeleceu essa ideia como a sua tese/pressuposto – o ponto de partida de sua argumentação – a tese se apresenta na introdução do texto e está posta de forma clara, direta: “A discriminação sofrida pelos meninos de rua não pode mais ser julgada como um preconceito absurdo de pessoas insensíveis...” A aluna defende que o preconceito em relação aos meninos de rua é algo que deve ser visto como natural, uma vez que é consequência do medo provocado pela violência urbana. É esta a ideia/tese da qual ela pretende convencer o leitor e que aparece no texto inteiro, inclusive no final, quando a retoma.
Podemos dizer que esse texto é um artigo de opinião por vários motivos, mas principalmente porque a autora apresenta uma ideia que foi formada/(re)elaborada a partir de uma tema, com a preocupação de defendê-la. Além disso, utilizou argumentos para mostrar a legitimidade do que afirma no texto. E ela não está simplesmente falando sobre o menino de rua, abordando vários aspectos sobre a temática ‘menino de rua’ (o que configuraria o texto dissertativo); está afirmando que há sentido no preconceito da população em relação ao menino de rua – trata-se apenas de uma reação ao medo da violência que sofre no dia-a-dia. Assumida a tese, a partir do tema/objeto, a aluna seguiu uma linha de raciocínio lógica, trazendo dados da realidade e manipulando-os de forma a favorecer a sua argumentação, a persuadir o leitor de maneira certeira. A linguagem informal, esse ‘discurso’ próprio da autora, foi valorizado por ela, na produção do texto, e é assim que deve ser. Se o artigo de opinião é o texto em que o sujeito fala, expõe-se, mostra que é capaz de refletir sobre a realidade, de assumir e defender uma posição, temos, na linguagem própria de cada um, na subjetividade explícita, o meio mais eficaz de mostrar a determinação e firmeza necessárias à elaboração de um texto pertencente a esse gênero.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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RASTIER, F.. Le problème èpistémologique du contexte et le statut de l´interpretation dans les sciences du langage. Paris: Langages, n. 129, 1998.
VANOYE, Francis. Usos da linguagem: problemas e técnicas na produção oral e escrita. Trad. Clarisse Madureira Sabóia et al. 6.ed. São Paulo: Martins Fontes, 1986.